Meus gênios abusadores

O que fazer com a arte de homens monstruosos?

Eles fizeram ou disseram algo horrível, mas criaram algo maravilhoso.

A biografia de um artista deve influir na apreciação de sua obra? Denúncias reabrem o debate.

Claire Dederer- El país

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Assim começa o texto que eu tanto esperei encontrar sem ao mesmo procurar. Claire Dederer é autora das memórias Love and Trouble. Está escrevendo um livro sobre a relação entre o mau comportamento e a arte de qualidade. O artigo que eu li no El País foi publicado em inglês no The Paris Review Daily.

Claire Dederer

Dederer conta como foi o processo de assistir a grande obra prima de Woody Allen, Manhattan, e outros gênios das artes, para seu livro.

“Todos eles fizeram ou disseram algo horrível, mas criaram algo maravilhoso. O horrível afeta o maravilhoso; não podemos ver, ouvir ou ler a grande obra de arte sem recordar o horror. Assoberbados com o que sabemos da monstruosidade do criador, nos distanciamos, cheios de repugnância. Ou talvez não. Continuamos olhando, tentando separar o artista da obra de arte. Em qualquer caso, é perturbador. São gênios e são monstros, e não sei o que fazer com eles.”

“Estava pesquisando sobre Roman Polanski para um livro que escrevia, e fiquei impressionada com suas atrocidades. Era algo monumental, como o Grand Canyon do Colorado. E, no entanto… Quando via seus filmes, eles tinham uma beleza que era outro tipo de monumento, imune a tudo o que sabia de sua maldade. Havia lido muitíssimo sobre quando ele estuprou a menina Samantha Gailey, de 13 anos; tenho certeza de que não me falta saber nenhum detalhe. Mas, apesar disso, continuava sendo capaz de ver seus filmes.”

Ela conta como é para ela a sensação de pertencimento, “essa conexão inventada que pode ser ainda mais bela que o amor” que sente sempre que assiste Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Annie Hall), de Allen.

Filme que assisti um dia sozinha já aqui em Portugal escondida de mim mesma, por eu não aceitar que eu assista uma obra de um ser tão repugnante  como diretor.

Annie Hall

“Veja, eu não saio por aí me conectando com a humanidade. É um raro prazer. E tenho que abrir mão dele só porque Woody Allen se comportou mal? Não me parece justo.”

Além de sentir repugnância pelo diretor, nem aceitar o que ele fez com Soon-Yi e Dylan Farrow, não consigo entender o que fazer com as obras que amei por toda minha vida, O sonho de Cassandra, Meia noite em Paris, Vicky Cristina Barcelona, A rosa purpura do Cairo, Scoop, The Rome with love, títulos que eu mantinha como favoritos e adorava assistir incontáveis vezes.

Assim como as obras de Wood Allen, tenho os mesmo sentimento de não saber o que fazer diante da arte de David Bowie, John Lennon, Johnny Depp, Chaplin, James Brown, as fotografias envolventes de Terry Richardson.

Todos eu já tive um apreço gigantesco pelos trabalhos mas não consigo ignorar e engolir suas personalidades monstruosas.

Me senti abraçada pelas palavras escritas por Claire Dederer, ela e com certeza muitas mulheres já se depararam com o mesmo sentimento:

“Acredito que isso é o que acontece com muitos de nós quando pensamos na obra de gênios monstruosos: dizemos que temos pensamentos éticos, quando na verdade o que temos são sentimentos morais. Colocamos palavras ao redor desses sentimentos e os chamamos de opiniões. “O que Woody Allen fez foi muito ruim”. E os sentimentos nascem de um lugar mais elementar que os pensamentos. O fato era que eu me sentia nervosa com a história de Woody e Soon-Yi. Não estava pensando; estava sentindo. Me sentia pessoalmente ofendida.”

Quando eu era adolescente e amava assistir Wood Allen, minha mãe se incomodava, mas nunca sentou pra me explicitar o porquê.

Ficamos anestesiadas, sem muito bem saber o que fazer porque a sociedade não nos ensina como reagir ao machismo, até porque o machismo é o que rege todos os âmbitos o qual estamos infiltradas onde as mulheres lutaram para entrar e os homens acham que deixaram por vontade própria partilhar.

Pensamento, sentimento, decisão e voz não é algo que nenhuma mulher aprende ter desde criança, por mais aberta que seja sua criação para ser uma garota livre, uma sociedade patriarcalmente formada está na sua porta a esperar que você saia pra te empurrar e te fazer se sentir frágil quando estiver com o joelho e mãos raladas no chão.

Mesmo que não chores, vai ser chamada de sensível e de que precisas de uma companhia pra sair de casa, mas caso a tua companhia seja outra garota, vocês continuaram a estar sozinhas.

Sozinhas é o sentimento que eu sinto quando não sabemos prosseguir com essas obras.

“(…) cortamos para um plano de Isaac (o personagem de Allen), jantando com seus amigos Yale (está brincando comigo? Yale?) e sua mulher, Emily. Com eles está a acompanhante de Allen, uma estudante de 17 anos chamada Tracy, interpretada por Mariel Hemingway. (…)Para Allen, Tracy tem uma bondade e uma pureza que as mulheres adultas do filme não podem ter jamais. Tracy é sábia, tal como Allen a roteirizou, mas, ao contrário dos adultos, é milagrosamente livre de qualquer neurose.”

Neuróticas.

Gwyneth Paltrow, Angelina Jolie, Cara Delevingne, Lea Seydoux, Rosanna Arquette, Mira Sorvino e muitas outras atrizes denunciaram um dos mais poderosos produtores americanos, Harvey Weinstein, a cada denuncia, as pessoas sempre se questionam: “será mesmo?”

Algo que acontece repetidas vezes, todos os dias, com todas as mulheres do mundo inteiro, é questionado sempre com aquela sombra de dúvida se as mulheres não estão a mentir.

~As vezes é só impressão, sabe como as mulheres são neuróticas~

“(…) “Temos um sexo maravilhoso”. Para Isaac, isso é muito conveniente: ele consegue absorver sua simplicidade encerrada num corpo tão belo, ficando assim isento de culpa. As mulheres do filme não têm essa vantagem.

As mulheres adultas de Manhattan são frágeis e muito conscientes da morte; sabem de tudo. Uma mulher que pensa está presa, afastada do corpo, da beleza, da própria vida.

Na minha opinião, o momento mais significativo do filme é uma frase dita por uma mulher muito elegante em tom de queixa durante um coquetel. “Finalmente, tive um orgasmo e meu médico me disse que foi dos ruins.” A (divertida) resposta de Isaac: “Foi dos ruins? Nunca tive um dos ruins, nunca. O meu pior foi bem na mosca”.

Todas as mulheres que assistem ao filme sabem que o estúpido é o médico, não a mulher. Mas Woody/Isaac não vê dessa forma.

Se uma mulher é capaz de pensar, não pode ter orgasmo; se pode ter um orgasmo, não é capaz de pensar.”

Dederer recebeu criticas de amigos e seguidores por não conseguir engolir Manhattan.

Acredito que Manhattan e sua história pró-menina e antimulher seriam inquietantes mesmo que o furacão Soon-Yi nunca tivesse tocado solo. Mas não podemos saber, e aí está a chave do assunto. O filme de Louis C. K. I Love You, Daddy — o relato de um pai que tenta evitar que sua filha adolescente se envolva com um homem mais velho — terá um destino similar. Será impossível vê-lo como algo alheio ao comportamento indevido de Louis C. K., se é que chegará a ser visto. Até agora, a distribuição foi suspensa e o filme não vai estrear. Uma grande obra de arte nos provoca sentimentos. E, no entanto, quando digo que Manhattan me provoca náusea, um homem me responde: “Não, esse sentimento não. Você está tendo o sentimento errado.” E fala com autoridade: “Manhattan é uma obra-prima”. Mas quem diz isso? A voz autorizada diz que a obra não deve ser afetada pela vida. Que a biografia é uma falácia. Que a obra existe num mundo ideal (a-histórico, alpino, nevado, puro). Isso fica para os vencedores da história (os homens) (até agora).

Dederer

Dederer recebeu criticas de amigos da mesma forma que recebemos criticas todos os dias quando resolver expor que não aceitamos objetificações e imposições de como temos que nos portar. Tudo começa a se trocar, aparentemente. Do que somos e que aceitamos, se somos o que não aceitamos, a escritora passa a se ver como monstro.

O teatro psicológico da condenação pública dos monstros pode ser considerado uma espécie de distração elaborada: não olhem para mim, não há nada para ver. Não sou nenhum monstro (…)  

Com todas as coisas horríveis que não fiz, talvez eu não seja um monstro. Mas há uma coisa que de fato fiz: escrever um livro. E escrever mais um livro. Ensaios, artigos e resenhas. Ou talvez isso me transforme num monstro, mas num sentido muito específico.

O crítico Walter Benjamin falava da “barbárie que está na base de toda grande obra de arte”. Minhas obras não são exatamente grandes, mas me pergunto: existe um pouco de barbárie na base de toda pequena obra de arte? Uma pontinha?(…)

Me pergunto se sou suficientemente monstruosa. Sou consciente de minhas falhas como escritora — conheço a lista em detalhes, e o pior são as falhas que sei que não conheço —, mas uma pequena parte de mim tem que perguntar: se fosse mais egoísta, meu trabalho seria melhor? Deveria almejar ser mais egoísta?

Todas as escritoras e mães que conheço se fizeram essa pergunta. Nenhuma diz isso em voz alta, mas posso ouvir como pensam; é quase ensurdecedor.”

Enquanto não sabemos o que fazer com as obras dos monstros, nos tornamos monstros sem ao menos saber. A monstruosidade da mulher e não olhar para o filho, enquanto um homem precisa assediar uns numero minimo X para poder ser considerado um monstro, mas ainda assim colocado em causa se as vitimas não são culpadas.

Talvez eu não extinga radicalmente todas as obras, posso até reler, reassistir, ouvir novamente, para tirar outras apurações diante dessas artes, uma coisa tenho certeza, vai se tudo pirata! Contribuir com esses monstros é algo que eu não vou fazer, está é a minha primeira decisão.

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